15 setembro, 2005

A mensagem da demagogia está a ser eficaz

Como toda a gente, mesmo que por um dia só, passou pela escola, isso basta para fazer de cada um (aos seus próprios olhos), um especialista em educação.
Hoje, a vox populi acha um insulto um professor estar 21 horas no seu local de trabalho. Curioso é que a maior parte dos professores tenha mais horas, só de aulas, do que essas 21. E ignoram (por omissão?) as horas de

apoio aos alunos;
burocracia imposta;
atendimento a alunos, a pais;
reuniões de turma, de grupo, de departamento, de ciclo, pedagógicas, intercalares, disciplinares, de avaliação...

Há professores que trabalham essas 21 horas num só dia, conheço-o de bem perto, e não é de forma esporádica que o fazem, antes ao longo de anos.
Agora, vão acabar com tudo isto. Graças à redução para as 35 horas semanais de lei, vou assistir a cenários como o que se segue:
83 pessoas a trabalhar numa sala com uma superfície equivalente à de uma sala de aula média/grande (com capacidade para 40 alunos), 16 lugares sentados com direito a mesa, 8 lugares sentados com direito aos próprios joelhos (ao nível do peito) para escrever, os restantes de pé. Também há 3 computadores, mas parece que os monitores foram precisos para outro destino qualquer, pelo menos esta semana. E ainda, um corredor, com armários nas paredes.
Só lamento a Demagogia ter um imperceptível problema de visão (como a Justiça).

O (meu) tempo está a terminar, para a próxima semana eu continuo.


Conde Estável

19 agosto, 2005

Ao fim e ao cabo

Tinha 90 anos e o cansaço estampado no olhar. Em vésperas de assinalar os 91 apresentava já sinais de alguma debilidade. O mesmo olhar que havia velado o sono aos filhos, netos e bisnetos e que havia orientado os dedos a tantas rendas que houvera feito estava agora perdido. Custava olhar para si e pensar que ainda há alguns meses não parecia ter a idade que tinha. Agora sim, parecia. Ouvia mal, trocava as coisas, parecia estar a leste quando falavam consigo, havia perdido a autonomia. Em dois dias e após algumas partidas que o corpo lhe pregara, parecia que tinha envelhecido vinte anos.

Em vésperas de assinalar os 91, a médica quis confirmar o seu estado:
- Então quando faz anos?
- Dia 5.
- Não, faz dia 2!
- Dia 5!
- É mesmo dia 5, doutora - confirma o marido.
- Mau, então aqui no cartão está dia 2...!

E estava. No cartão, no BI, na certidão de nascimento pedida para que se desfizesse o mistério. Mas não em todas as velas que havia soprado para assinalar a data, nem em todos os papéis que até aquele dia havia preenchido, porque a mãe assim lho dissera. Dia 5.

Aos 90 anos, ao cabo de toda uma vida, descobriu-se três dias mais velha.


(Qualquer semelhança com a ficção é pura coincidência)

Pelo condomínio: Condessa da Lua

10 agosto, 2005

Como uma pena

Os valores criam uma mui secreta cumplicidade entre as pessoas, por diferentes que sejam as opiniões, por distantes que sejam os enquadramentos sociais, vivências, preferências. Pode-se gostar muito de pessoas que distam anos luz das nossas referências nesse nível, e gosta-se, e..., mas alguma coisa se quebra e desfaz na intimidade que não se pode cumprir ou continuar.
E apesar de tudo, há várias espécies de valores e há amores que nos deixam divididos, amores no sentido lato, família e amigos, pessoas cujo bem estar se cruza inevitavelmente com o nosso. É isso que divide, esse amor que não deixamos de sentir e que nos une. Mesmo que algo expluda cá dentro e se revele clara a necessidade de aceitar dolorosamente a frieza das evidências.

Todo o pensamento se desloca quando os acontecimentos naturais e marcantes da vida nos avisam da efemeridade de tudo. E há tanta coisa que não vale a pena. O texto acima, por exemplo, que vale o que vale um desabafo existencial. Ou seja, muito.


In topic : E boas férias e isso e tal:)


Condessa Descalça

02 agosto, 2005

Olhando em frente

Como um lobo capaz de devorar em grandes dentadas a vida.
Esses bocados enormes reservados só para mim.



(Algures em 1992.)


Condessa Descalça

31 julho, 2005

1961-2005

Mais ninguém vai jogar pedra na Géni!

Conde Estável

26 julho, 2005

O que é feito de si?

Tinha medo de envelhecer. Tinha pressa de viver.
Marcara os cinquenta anos como limite para a viagem. Amava depressa e muito. Muitos também; numa incessante demanda de calor, de aconchego. A ternura e o carinho sendo palavras interditas - embora vividas na intensidade.
Em todos deixava a marca da sua efemeridade, pois era esse o seu rasto no mundo.


Pelo condomínio: Conde Estável

16 julho, 2005

O lado esquecido da vida de bairro

Chego de manhã. Procuro, rapidamente, um lugar à sombra para que o carro não estorrique ao sol e cumpro o ritual. Arrasto-me até ao café da Mikas (café?!?antes mais uma garagem adaptada onde só cabem 4 pequenas mesas redondas) para tomar a minha dose dupla de cafeína intervalada por um pão fresco com manteiga. Não preciso dizer nada. D. Graça, com o seu ar sabiamente sereno, pergunta “é o mesmo de sempre?” e o meu sorriso responde-lhe. Quase não falamos, não precisamos!

A D. Maria, de 60 e muitos anos, sentada no canto, enquanto toma o seu pequeno-almoço, meia de leite e um bolo imenso coberto de creme, mete-se, de forma brejeira, com todos.

Carlitos, de 2 anos, rabia por todo o lado, saltando de colo em colo, andando de mesa em mesa em busca de pedaços de bolos abandonados e aprendendo todas as malandrices que as mulheres se divertem a ensinar. Ainda não fala mas faz-se entender. E todas, naqueles momentos, somos a sua mãe.

D. Rosa, mais conhecida por Róró, uma senhora toda gaiteira, que só descobriu o prazer de viver aos 70 anos, distribui beijos repenicadinhos nos pescoços enquanto comenta os nossos perfumes de ocasião.

São horas de entrar na Casa e começar a labuta. Atravesso a porta do café e sou quase atropelada por um pirralho de 4 anos mingados, com ranheta marcando um risco seco na cara e calções rasgados, que me olha com ar misto de desafio e de desconfiança. É um pirralho artista que, em época da volta à França, faz maravilhas numa bicicleta pronta para a sucata. Brinco com os putos que aparecem em grupos e me provocam. Todos de tronco nu que o calor aperta. E falo com as princesas como tratar o Snoopy que adoptaram. Tenho de ir… já é tarde… e os meus rapazes esperam-me. Mas sabe-me tão bem este lado esquecido da vida de bairro…

Foto de João Santiago

Pelo condomínio: Condessa às Avessas

11 julho, 2005

O embrulho cor de púrpura


Ontem esta casa chorou comigo. Passei a tarde a realinhar, a recolher as cartas de amor, os mails, os pedaços de uma vida a dois. Coloquei tudo por ordem cronológica do princípio até ao fim do amor. Até as cartas que escrevi e nunca te enviei. Pedro Paixão diz que um amor começa antes de começar e que acaba antes de acabar e é certo que a frase me intriga porque não sei se concordo. Hoje pelo menos não concordo. Reli tudo, o namoro de palavras que nasceu como um filho que despontou em nós e nos fez antecipar o futuro. Fomos mar e fomos chama, fomos risos e pura alegria, fomos um casal normal, fomos paixão e amor.
Não me perguntem como tudo acabou nem como começou. Não saberia cercar nas paredes do tempo algo que tão imortal nos pareceu, na altura.
Li e reli, chorei sentada no tapete da sala, sorri com a intensa paz de muito ter amado, de muito ser amada, sorri com as palavras que foram puro amor, arrebatamento e ternura, malandrice. E em paz, no fim, sorri chorando lembrando a felicidade e esquecendo o que de mau houve depois. Não sei se ri e chorei ao mesmo tempo, sei que estava ali um pedaço da minha vida que não enjeito, que acolho e por isso, num derradeiro esforço de pôr um ponto final, juntei todas as cartas, as fotos e vou embrulhá-las em papel de cor púrpura e colocar fita da mesma cor e colocar no fundo de um baú. Não sei qual será o seu destino, se eu viver muitos anos. Queimarei as cartas na lareira, vendo as chamas apagarem os rastos de algo só nosso e para sempre só nosso? Enviar-te-ei um dia, num derradeiro acto de abandono, de vontade de me fazer viva? Deixarei para quem cá ficar?
Não sei do futuro e o que ele me reserva. Sei que ontem precisei de arrumar um pouco mais a cabeça. E a noite dormiu-me inteira.


Condessa Descalça